Patrono da sede e dos dias de calor. Reunidos sob a oliveira, brindamos ao santo — assim manda a lenda, assim manda a sede.
Conta-se, em velhas prosas passadas de boca em boca na freguesia de Santa Leocádia, que em tempos idos, por alturas em que o sol queimava com fúria os cumes dos montes e crestava os rostos dos homens, um peregrino de nome esquecido pelo tempo trilhava os caminhos pedregosos das terras de Baião.
Cansado e abrasado pelo calor do meio-dia, o varão avistou um tanque de pedra lavrada, talvez erguido por mãos de monges ou de lavradores há muito idos. Com esperança de alívio, correu até à pia, mas nela não havia pinga de água. Caiu de joelhos, olhos cerrados e braços erguidos ao céu, e bradou:
— Ó Céus piedosos! Que desça o milagre, pois morro de sede nesta terra de silêncio e calor!
Mal terminou a súplica, uma claridade assombrosa surgiu por sobre uma vetusta oliveira ali próxima. Da luz fez-se forma: uma figura varonil, envergando vestes que não pertenciam nem a tempo nem a reino conhecido. Trazia consigo um estranho recipiente, liso como o vidro mas resplandecente como ouro ao sol.
Disse-lhe então o vulto com voz que ecoava como trovão manso:
«Se não forem ofertados recipientes iguais, vazios, todos os anos a esta oliveira, não crescerá, nem seus frutos servirão de sustento ou unção.»
O peregrino, pasmo e sedento, recebeu das mãos do santo a bebida — espumosa, dourada e fresca como nascente. Ao prová-la, sentiu renascer corpo e espírito. Desde esse dia, converteu-se ao culto do São Baião, patrono da sede e dos dias de calor.
Jurou, de mão no peito e alma rendida, que todos os dias elevaria um brinde ao santo, cumprindo o sagrado sacrifício de beber uma cerveja em sua honra, jamais deixando a oliveira sem a sua oferenda de copo ou garrafa vazia.
Assim nasceu o rito, celebrado ainda hoje, nas festas e romarias de Baião: nenhum fruto será bom, se não for paga a promessa com sede e devoção. Nenhuma festa será abençoada se não houver cerveja, e nenhuma cerveja é desperdiçada se for em nome de São Baião.
Marca-se à porta, guarda-se a data: a oliveira espera-nos a todos.
A liturgia completa da romaria — recheada de comida, caminhada, baile e foguete.
Escutai, nobres peregrinos,
Almas de sede e bons destinos!
Chegou de novo a celebração,
Do glorioso São Baião.
Patrono da sede e dos dias de calor,
Guardião do lúpulo e do bom humor,
Ordena agora, com devoção,
Que se confirme a participação.
Pois importa ao santo calcular,
Quanta comida há-de mandar preparar,
Quantos barris irão correr,
E quantas bocas vão comer.
Haverá mesa farta e animada,
Com iguarias da terra abençoada,
Doces típicos e lúpulo sagrado,
Até que o stock seja terminado.
A esmola da confraria,
Fixa-se em 30 moedas nesta romaria.
Inclui comida, bebida e animação,
E t-shirt amarela da celebração.
Mas diz São Baião, com afeição:
Criança pequena não paga tostão.
Que venha brincar e celebrar,
Que o santo não a quer cobrar!
O caneco sagrado da devoção,
Pode ser adquirido por 7,5 moedas na ocasião.
E sendo ele reutilizável,
Fica a festa mais sustentável.
E se lucro houver nesta operação,
Será milagre e aparição…
Pois no ano transato, sem piedade,
O santo sofreu prejuízo de verdade!
Assim ordena São Baião:
Confirmar até 27 de Maio então,
Para que o santo possa contar,
Quantas bocas terá de alimentar.
E no dia, sem grande demora,
A esmola paga-se na hora.
Ide agora espalhar a palavra,
Antes que o santo a paciência perca!
Que São Baião vos venha alumiar,
E o lúpulo jamais venha a faltar! 🍻
Um dia de oliveira, sardinha e Super Bock. Toca em qualquer fotografia para ver em grande.